Poema Desde Modo ou Daquele Modo Alberto Caeiro


Oi boa tarde, meus queridinhos leitores! O post de hoje trago um poema que eu curtir muito.

Deste modo ou daquele modo

Alberto Caeiro

Deste modo ou daquele modo. 
Conforme calha ou não calha. 
Podendo às vezes dizer o que penso, 
E outras vezes dizendo-o mal e com misturas, 
Vou escrevendo os meus versos sem querer, 
Como se escrever não fosse uma cousa feita de gestos, 
Como se escrever fosse uma cousa que me acontecesse 
Como dar-me o sol de fora. 
Procuro dizer o que sinto 
Sem pensar em que o sinto. 
Procuro encostar as palavras à ideia 
E não precisar dum corredor 
Do pensamento para as palavras.


Nem sempre consigo sentir o que sei que devo sentir. 
O meu pensamento só muito devagar atravessa o rio a nado 
Porque lhe pesa o fato que os homens o fizeram usar. 


Procuro despir-me do que aprendi, 
Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me 
ensinaram, 
E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, 
Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, 
Desembrulhar-me e ser eu, não Alberto Caeiro, 
Mas um animal humano que a Natureza produziu. 


E assim escrevo, querendo sentir a Natureza, nem sequer 

como um homem, Mas como quem sente a Natureza, e mais nada. 
E assim escrevo, ora bem ora mal, Ora acertando com o que quero dizer ora errando, Caindo aqui, levantando-me acolá, Mas indo sempre no meu caminho como um cego teimoso. 

Ainda assim, sou alguém. 
Sou o Descobridor da Natureza. 
Sou o Argonauta das sensações verdadeiras. 
Trago ao Universo um novo Universo 
Porque trago ao Universo ele-próprio.


Isto sinto e isto escrevo 

Perfeitamente sabedor e sem que não veja Que são cinco horas do amanhecer E que o sol, que ainda não mostrou a cabeça Por cima do muro do horizonte, Ainda assim já se lhe vêem as pontas dos dedos Agarrando o cimo do muro Do horizonte cheio de montes baixos. 

                           Um beijo, até o próximo post!

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